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Dossiês: contador foi filiado ao PT

Apesar de sustentar, em diversas entrevistas à imprensa, que nunca teve

filiação partidária, o contador Antonio Carlos Atella Ferreira – que, com

uma procuração falsa em mãos, pediu acesso às declarações do Imposto de

Renda da filha do candidato tucano à Presidência, José Serra, Verônica Serra 

foi filiado ao PT.O pedido de filiação foi feito em 2003. O nome dele não

aparece na base de dados atual da Justiça Eleitoral porque, em 2009,

houve um problema técnico em seu registro, que não foi corrigido.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP),

Atella filiou-se em 20 outubro de 2003 ao PT. A data de exclusão

é de 21 de novembro de 2009.

Isso não significa, no entanto, que Atella tenha se desfiliado, apenas

que o nome dele deixou de constar da lista de filiados ao PT.

A exclusão foi feita menos de dois meses depois da violação

do sigilo de Verônica Serra. A filiação foi feita primeiro em Mauá,

no ABC paulista. Depois, o título de eleitor de Atella foi transferido

para Ribeirão Pires, também no ABC.

Na quinta-feira, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo,

Atella disse que não era filiado a nenhum partido político. “Se alguém

me filiou, nem conheço quem é, se caso eu tiver filiado”, declarou.

Inquérito – Atella foi identificado, em inquérito da Corregedoria

da Receita, como o homem que pediu acesso aos dados sigilosos

de Verônica e juntou ao expediente uma procuração com a assinatura

falsificada da filha de Serra e dados incorretos do tabelião, como

 mostrou o site de VEJA.

Em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, Atella apontou um

suposto contratante: Ademir Estevam Cabral. Segundo o contador,

Cabral encomendaria serviços e trabalharia para outras pessoas.

O trabalho, afirmou, viria “do Brasil inteiro”. Atella citou Minas Gerais,

Brasília e São Paulo. Por telefone, Cabral negou ao JN ter falsificado

a assinatura de Verônica ou que tenha passado por ele o pedido

de cópia de documentos em nome dela. O TRE também confirmou

a filiação de Cabral ao PV.

Assinatura de Verônica Serra é falsa, atesta cartório

Declaração de tabelião comprova que a procuração em nome da

filha de Serra é uma fraude.

 

Imagens da procuração com a assinatura falsa de Verônica Serra, à esquerda,

e da declaração do cartório, atestando a falsidade do documento.

Documento exclusivo, obtido pelo site de VEJA, atesta que é falsa a assinatura

de Verônica Serra, filha do candidato à Presidência José Serra (PSDB),

que consta em procuração apresentada à Receita Federal para que os

dados do Imposto de Renda (IR) dela fossem consultados. A informação

foi antecipada pelo colunista Reinaldo Azevedo. A firma de Verônica não

consta no 16º Cartório de Tabelião de Notas de São Paulo. A declaração

que comprova que a assinatura não é verdadeira é assinado pelo tabelião

do cartório, Fábio Tadeu Bisognin.(clique aqui para ler a declaração).

A procuração com a assinatura falsa foi apresentada à Receita para

justificar o acesso ao IR de Verônica, feito pela analista tributária

Lúcia de Fátima Milan, lotada na delegacia de Santo André, no

ABC paulista. O nome da pessoa que supostamente havia recebido

a procuração e pediu os dados é Antônio Carlos Atella Ferreira.

A Receita chegou a dizer que o acesso aos dados, feito por Lúcia,

era justificado, apresentando como prova justamente a procuração

que agora se mostra falsa

(clique para ver a íntegra da procuração com a assinatura falsa).

 

A candidata Dilma Rousseff afirma que não encomendou dossiê

nenhum contra José Serra, muito menos o estupro do sigilo fiscal

da filha do adversário. “Se alguém fez alguma coisa errada, não

tenho nada com isso”, vem repetindo. Ela alega que não pode

controlar a movimentação no comitê de campanha, como ficou

claro no episódio do programa de governo que rubricou e assinou,

mas não leu. “Me pediram rubrica”, já explicou. “Rubricar é rubricar

e eu rubriquei”.

O contador Antonio Carlos Atella afirma que não fez nada de

errado ao consumar o estupro do sigilo fiscal de Verônica Serra

com a procuração que apresentou à Receita Federal. “Não faço

a menor ideia de quem encomendou o serviço”, vem repetindo.

Ele só lembra que os interessados tinham pressa e que o documento

lhe foi entregue pelo office-boy Ademir Estevam Cabral.

Se a candidata não controla o tráfego no comitê, sobretudo em

seus subterrâneos, o contador alega que não pode controlar

a movimentação da papelada que despacha diariamente:

 “Pediu, estou tirando”, já explicou. “Se pedir de quem quiser

eu tiro, e a Receita tem que entregar”. O Fisco já foi mais

cuidadoso na lida com gente assim. Entre outros pontapés nos

códigos legais, o alentado prontuário de Atella informa que

o portador já foi pilhado em flagrante usando quatro CPFs

ao mesmo tempo.

Dilma promete processar José Serra pelo que anda dizendo

no horário eleitoral. “Estou sendo ofendida na minha honra”,

recita. Atella promete processar jornais e revistas que andam

divulgando notícias sobre as enrascadas em que se meteu.

 “Estou sofrendo danos morais”, declama. A candidata jura

que não teme perder, em consequência do escândalo, a liderança

nas pesquisas eleitorais. O contador tem certeza de que não

perderá o direito de ir e vir.

Ficou mais confiante nesta sexta-feira: depois de um depoimento

de cinco horas na Polícia Federal, não foi sequer indiciado.

Os sherloques querem ouvir com urgência Verônica Serra.

A conversa com a vítima da violação com motivações

eleitoreiras lhes parece mais urgente que, por exemplo,

o interrogatório de evelações de Otacílio Cartaxo, secretário

da Receita Federal).

“Não existe sistema inviolável”, disse nesta tarde o ministro

da Fazenda, Guido Mantega. Pode ser. Nos países que não

se assemelham a um clube dos cafajestes, contudo, os autores

do crime vão para a cadeia e funcionários públicos relapsos

ou cúmplices, como Cartaxo, são demitidos. Não é o caso

do Brasil, confirma o contador. “Todo mundo aqui está

passível de ter a vida investigada”, ensina Atella. “Esse

é o Brasil dos f.d.p.”

Nesse Brasil, como comprovam as frases entre aspas,

uma candidata à Presidência, um ministro da Fazenda e

um especialista em maracutaias fiscais falam a mesma

linguagem. É o dialeto dos que se consideram condenados

à impunidade.

Augusto Nunes

O PASTOR NÃO OUVIU O QUE DISSE

Para evitar a ampliação do estrago causado pelo estupro

do sigilo fiscal de políticos tucanos, eles esconderam o caso

de Verônica Serra. Para reduzir o impacto da violência imposta

à filha de um candidato à Presidência, eles providenciaram uma

procuração falsificada. Para diminuir o assombro provocado

pela descoberta da fraude, eles escalaram para o papel de

culpado um contador especializado em maracutaias no Fisco.

Para abrandar a perplexidade decorrente da notícia de que

o contador é um petista de carteirinha, eles agora costuram

às pressas a mentira de amanhã.

Nesta quinta-feira,  em entrevista ao Jornal Nacional, o

contador Antonio Carlos Atella Ferreira garantiu que nunca

fora filiado a partido nenhum. “Se alguém me filiou, nem conheço

quem é, se caso eu tiver filiado”, gaguejou. A mentira foi implodida

24 horas depois: hoje, o JN informou que Atella foi adepto da

seita entre 20 de outubro de 2003, quando assinou a ficha de

inscrição no PT de Mauá, e 21 de novembro de 2009, menos de

dois meses depois da violação do sigilo de Verônica Serra.

Atella primeiro jurou que não se lembrava dos seis anos de

militância. Logo admitiu que pode ter assinado alguma ficha

“num momento de empolgação”. Foi socorrido por José Eduardo

Dutra, presidente nacional do partido. Até o fim da tarde,

Dutra nunca ouvira falar em Atella. Descobriu em menos de

duas horas que o contador bandido “nunca teve participação

política dentro do PT”. Se existiu, declamou o companheiro,

a filiação foi “apenas cartorial”.

Em 17 de julho de 2005, levado às cordas pelo escândalo

do mensalão, o presidente Lula usou uma entrevista ao programa

Fantástico para esquivar-se da saraivada de golpes e escapar

do nocaute. “Trabalhar com a verdade é muito melhor”, disse

com pose de professor de jardim de infância. “A desgraça

da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira

contando mentiras para justificar a primeira que você contou”.

Verdade. Só que o pastor não prestou atenção no que dizia.

Nem o rebanho.